“Lost in the Dream” é um labrador cor-de-chocolate

paco

Eu me sinto um pária por ouvir a mesma pergunta e dar a mesma resposta há dois anos:
– O que você anda ouvindo?
Lost In The Dream, The War On Drugs.

É pressa demais para tudo hoje em dia. Discos parecem durar dias no ouvido dos outros. Saiu ontem?, é velho. Conseguiram deixar o efêmero ainda mais passageiro. Desconectaram uma geração inteira de suas paixões em busca do consumo vicioso non-stop do NOVO.

Lost in the Dream faz a ponte entre todos os sons que embalaram minha vida nos últimos 32 anos, ligando por um fio o pop radiofônico dos anos 80 e o indie rock do início do terceiro milênio, com ventos de Bob Dylan fase Rolling Thunder Revue, Tom Petty, Bruce Springsteen e Wilco.

Ele é o meu cachorro, meu labrador, meu companheiro. Todos os dias em que as perguntas apertam, ele está lá. Tudo o que ele quer é carinho. Às vezes ele espelha sua tristeza. Outras, brinca e dança com você. Um disco que me dá bom dia com as primeiras notas de piano de “Under the Pressure” assim que eu piso na rua.

E QUE MÚSICA É “UNDER THE PRESSURE”. Ouvir alguém cantando um refrão como “Trying not to crack/under the pressure” indo para o trabalho é reconfortante; é saber que alguém a dez mil quilômetros de distância SABE QUE A VIDA ADULTA É UMA MERDA e que você não está sozinho. A geração que deixa tudo para trás numa breve SCROLLADA DE MOUSE sabe disso no fundo de seus corações, apenas é incapaz de manter o foco.

Aí vem “Red Eyes”, um hit com a urgência de um hit, até mesmo com compassos óbvios suprimidos; teclados em cascata pontuam a tensão mas é a BATERIA E A GUITARRA quem explodem primeiro no refrão, depois o teclado nos eleva às lembranças mais remotas das rádios pop que ouvíamos quando crianças nos carros de nossos pais e então TUDO CAI – alguns compassos de fôlego antes que o refrão volte e arrebate nossos corações.

Depois vem “Suffering”. Conheço poucas músicas que entreguem sua essência de forma tão sintetizada no título quanto esta. É de chorar largado.

As guitarras de “An Ocean Between The Waves” poderiam ser remixadas em um looping eterno. E há o verso “I’m in my finest hour/ can I be more than just a fool?” a ser cantado a plenos pulmões quando bêbado nas ruas da madrugada de sua cidade natal.

Calma, respira. “Disapearing” poderia estar em um disco do Talk Talk com certa tranquilidade.

Depois vem “Eyes On The Wind”, a canção mais Tom Petty & the Heartbreakers do álbum. E acontece isso aqui (leia com a música rolando):

I was sailin’ down here on the wind
When I met you and I fell away again
Like a train in reverse down a dark road
Carrying the whole load
Just rattling the whole way home
Have you fixed your eyes to the wind?
Will you let it pull you in again?
On the way back in?
I’m a bit run down here at the moment
Let me think about it babe
Let me hold ya
There’s a cold wind blowing down my old road
Down the backstreets where the pines grow
Where the river splits the undertows
But I’d be lying to myself if I said that I didn’t mind
Leave it hanging on a line
Lost inside my head
Is this the way I’ll be denied again?
So I’ll set my eyes to the wind
But it won’t be easy to leave it all again
Just bit run down here
It’s just a stranger
Living in me
As you set your eyes to the wind
And you see me pull away again haven’t lost it on a friend
I’m just bit run down here at the moment
Yeah, I’m all alone here
Living in darkness


Preciso ir além?

Existem discos melhores do que “Lost in the Dream”. Centenas, talvez. Existem cachorros mais legais que o Paco (o simpático labrador da minha sogra que ilustra acima este texto). Mas Paco é o cachorro mais legal e “Lost in the Dream” é o melhor disco da década em um mundo sem juízo de valor estético ao nível de um crítico de arte – um mundo em que tudo o que importa é uma estrada ensolarada ou um quintal grande cheio de plantas e cores e atemporalidade suficiente para escapar do cinismo que nos assola dia após dia – e que alimentamos sem perceber.

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As 21 melhores músicas do Queen que você provavelmente NÃO conhece

Queen foi a primeira banda de rock da minha vida e, de longe, a banda que eu mais ouvi durante os últimos 25 anos. Exceto por alguns lados B que somente tive contato com o advento da internet, quando mais novo e com uma memória melhor, era capaz de citar de cabeça o tracklist de todos os discos da banda, sem engasgar. Hoje, graças à rotina de assalariado, só consigo fazer o mesmo com linhas de metrô em São Paulo.

Se você nunca parou para ouvir um disco inteiro desta banda, provavelmente conhece apenas  “We Will Rock You”, “We Are the Champions”, “Love of My Life”, “Who Wants To Live Forever”, “I Want To Break Free” e “Bohemian Rhapsody”. E é impossível dissociar a imagem dessas músicas de situações como festas de formatura, comemoração de campeonatos, trailers de filmes, bandas cover com vocalistas ruins…

Esse estigma esconde que o Queen era for real: uma banda de rock que até se permitia uma CRUEZA mesmo quando a ordem do dia nos anos 70 eram discos superproduzidos que demoravam eras para nascer. Tanto que Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon se orgulhavam em não utilizar recursos eletrônicos nos sete primeiros 7 álbuns da carreira (nos créditos dos encartes estava a frase “No Synthesizers!”). Por outro lado, Brian May passava dias fazendo overdubs em suas guitarras; as tracks de vozes eram infinitas; as turnês eram suntuosas; as festas com anões servindo cocaína em bandejas de prata faziam mais sucesso com a crítica do que os próprios discos, enfim…

Fato é que o Queen lançou muito mais discos de canções inéditas em 18 anos de carreira do que deveria: entre 1973 e 1980, a média foi de 1 disco por ano, mais do que qualquer outra banda contemporânea no mesmo patamar. De 1981 a 1993, foi um disco a cada dois anos. Uma produção tão alta gerou álbuns inconsistentes que misturaram ouro puro a faixas completamente desinteressantes.

Mas, calma, captain here. Vamos te mostrar vinte (e uma) das músicas que realmente importam no catálogo de John, Freedie, Brian & Roger.

21) It’s Late (News Of The World, 1976)
Brian May nunca escondeu que duas das maiores inspirações da banda foram Cream e Led Zeppelin. Em “It’s Late”, se ouvem ecos de blues mais cadenciados de Jimmy Page, mas o refrão faz esquecer qualquer referência externa.

20) Sheer Heart Attack (News Of The World, 1977)
A música mais ABRASIVA que o Queen gravou, lançada bem no ano zero do punk rock. Ao vivo, vinha multiplicada por dez.

19) Innuendo (Innuendo, 1991)
É a última grande canção da banda. Livremente inspirada em “Kashmir”, segundo o próprio Queen, a faixa traz Steve Howe (do Yes) tocando violão flamenco em clima de Olimpíadas de Barcelona.

18) Good Company (A Night At The Opera, 1975)
Brian May não utilizava sintetizadores, mas tinha à mão pedais de efeitos e os botões da mesa de som para compor um naipe de metais completo a partir de sua guitarra. Genial.

17) Get Down, Make Love (News Of The World, 1977)
Queen soando como se o Led Zeppelin (de novo) fizesse uma jam session com um pianista prostituído num beco escuro. Uma das faixas mais esquecidas e subestimadas até mesmo por fãs da banda. Não merece tal destino.

16) Spread Your Wings (News Of The World, 1977)
John Deacon, a arma secreta do Queen. O comedido baixista (pleonasmo?) escreveu nada menos que “I Want To Break Free” e “Another One Bites The Dust”, dois dos singles mais vendidos da carreira da banda. Em “Spread Your Wings”, a singela letra ganhou companhia de guitarras cortantes e uma interpretação de Freddie Mercury, cantando como nunca.

15) Now I’m Here (Sheer Heart Attack 1974)
Uma das marcas registradas da banda, nunca deixou de ser tocada ao vivo desde que entrou nos setlists. Tão boa que foi autoplagiada em diversas faixas (?!) de The Cosmo Rocks, disco lançado com Paul Rodgers no vocal.

14) ’39 (A Night At The Opera, 1975)
Um folk sobre a TEORIA DA RELATIVIDADE. ’nuff said.

13) Seven Seas of Rhye (Queen II, 1974)
Primeiro grande single do Queen. A batida pesada em marcha e os delírios de reinos imaginários eram o cartão de visitas perfeito para a sonoridade da banda.

12) You’re my Best Friend (A Night At The Opera, 1975)
John Deacon strikes again! Ok, essa você provavelmente conhece de algum lugar…

11) Play The Game (The Game, 1980)
Primeira aparição de um sintetizador em uma música da banda. E um clipe ridículo. Queen definitivamente nos 80’s.

10) I’m in Love With My Car (A Night At The Opera, 1975)
Roger Taylor escreveu algumas das músicas mais pesadas do Queen e “I’m in Love…” é a melhor delas. Mesmo com um Freddie Mercury na banda, é impossível imaginar essa faixa sem a voz rasgada do baterista.

09) You Take My Breath Away (A Day At The Races, 1976)
Raro momento de economia na discografia de uma banda que amava arranjos exagerados. Uma balada jazzy melancólica apenas com a voz de Freddie Mercury, o piano, dobras de voz, algumas sombras de guitarra e mais nada. Linda.

08) Bicycle Race (Jazz, 1978)
Freddie Mercury gostava de Star Wars, sim. A letra era só pra irritar os modinhas.

07) Tie Your Mother Down (A Day At The Races, 1976)
Não, não é uma música do Foo Fighters. =)

06) It’s a Hard Life (The Works, 1984)
A segunda melhor música que o Queen gravou nos anos 80. Filha direta da 5ª colocada.

05) Somebody to Love (A Day At The Races, 1976)
O coral gospel, a letra escancarada, a montanha russa melódica, a essência de Freddie Mercury.

04) Hammer to Fall (The Works, 1984)
A imagem do Queen nos 80’s é a de teclados, teclados, bigode do Freddie Mercury e mais teclados. Não é bem assim. Em vários momentos, a guitarra Brian May teceu riffs simples e dominantes (“One Vision”, “Tear It Up”, “I Want It All”), mas a grande canção de rock que a banda lançou nessa época foi “Hammer to Fall”. Simples, direta, essencial.

03) Save Me (The Game, 1980)
De cortar o coração. A melhor música que Brian May escreveu na vida.

02) Don’t Stop Me Now (Jazz, 1978)
Indecifrável. Uma música que só o Queen, no equilíbrio do casco entre o rock de arena e o pop radiofônico, poderia conceber.

01) Under Pressure (Hot Space, 1982)
Em 1980, depois do $uce$$o de “Another One Bites the Dust”, o Queen sonhou pegar carona no pop eletrônico e em alguma noção bastante vaga de funk-disco (?) como se a música negra americana se resumisse apenas a linhas de contrabaixo elétrico. Resultado? Hot Space, considerado por muitos críticos o ponto mais baixo da música popular em todos os tempos. Só que a última faixa de Hot Space é nada menos do que “Under Pressure”, a mais bela flor de esperança nadando para fora de um mar de merda musical. Qual outra banda do GLOBO TERRESTRE tem o dom de colocar a melhor música de seus 18 anos de carreira nos últimos sulcos de seu pior disco? Inacreditável.

Página pra ser virada

Isso é uma máquina de ser, fábrica de ser
compulsório ser igual
Página de ser, página de ser…
Página de ser virada

Olhei fundo pra você (Olhei fundo pra você!)
Nunca vi tanta tristeza
Pare pra se resolver (Pare pra se resolver!)
Pois pode parecer que não há
mais nada
na vida
que faça
sentido ao seu
coração

Se isso serve pra você, serve pra você
Serve pra você se ligar!
Página clichê! Página deprê!
Página pra ser virada!

Ninguém foge à solidão (Ninguém foge à solidão!)
Todo mundo é tão igual
Se hoje eu machucar você (Se hoje eu machucar você!)
Com palavras pontiagudas

Ó, minha morada
Sou só um poço de mágoas
E é tão difícil amar…

Pode parecer que sim, pode parecer que
não há mais nada
nessa vida ingrata
que te faça algum sentido

É tão difícil amar…

(A única coisa que eu aguardo ansiosamente em 2015: o disco novo do La Carne).

Loomer na Associação Cecília, São Paulo/SP, 16/06/2015

A grande mentira do século XXI é de que a internet aproximou as pessoas. Se fosse verdade, não estaríamos todos cada vez mais individualistas, cada vez mais ~nicho~. As infinitas gigatoneladas de informação a que estamos expostos não nos torna (todos) parte de um mesmo contexto. Pior: formou uma horda de especialistas em generalidades com velocidade de raciocínio objetivo tão grande que aos quais nada surpreende. Imersos em verdades e opiniões engatilhadas prontas para disparo ao primeiro sinal de confronto. Em algum ponto, nossa geração se viu obrigada a abandonar a INOCÊNCIA COGNITIVA em favor de uma OBJETIVIDADE DE CRÍTICO DE ARTE para absorver cada aspecto de suas vidas que deveria ser composto apenas de LUZ, SOM, SABOR, CORES, CATARSE, REDENÇÃO.

Pra ficar no ESCOPO DE ANÁLISE deste blog: o rock morreu e renasceu como contracultura diversas vezes, mas não há nada rolando que una todas as tribos como foi o Norv… Calma, pera.

Guitarras altas, exageradas, são entendidas por aí como coisa do século passado. Has been. Milhões de bandas já fizeram isso, chega, desista, acabou, obrigado, não estamos interessados, passa amanhã, serve sopa de ontem? Veja quem eram os pontas de lança do que havia de mais renovador na música brasileira há 20 anos e quem são hoje. Sem entrar em méritos qualitativos: qual banda de rock brasileira, hoje, é artisticamente relevante fazendo um som massivamente calcado em acordes e barulho? Exato: nenhuma.

Então por que existe o Loomer, de Porto Alegre/RS, uma banda que pouco se importa que o som deles pareça um FÓSSIL datado entre 1989 e 1992? ELES EXISTEM PORQUE GUITARRA É LEGAL PRA CARALHO. Loomer é à prova de poseurs. Triste demais para os indies festivos, sujo demais para quem gosta de ~guitarrinha~, grunge demais para embalar o som apenas dentro do termo shoegaze. Loomer é para quem gosta de DISTORÇÃO GRATUITA. É Kevin Shields na teoria e J Mascis na prática.

Em uma terça-feira de vento frio em São Paulo, as pouco mais de 50 pessoas que estavam na Associação Cecília cobriam a faixa etária de 27 a 39 anos EXATA e UNIFORMEMENTE (salve, Coronel, Samuel e Kike!). Foram umas 10 canções. Os amplificadores pequenos não diminuíram a intensidade da banda. “Enough” e “Road To Japan” nunca falham em deixar a audiência sem palavras. Há um disco novo sendo gestado – e as músicas novas funcionam lindamente ao vivo.

Loomer na Associação Cecília, 16/06/2015

Loomer na Associação Cecília, 16/06/2015

Loomer é uma das poucas bandas na ativa que me tiram de casa exclusivamente para ver um show e é uma pena que venha tão pouco a terras paulistas.

A criança tem DOIS ANOS de idade. DOIS.

No futuro, a quem falará o romantismo e a ingenuidade da arte que tanto amamos hoje?

“We live in a strange time…”

Bob Mould no SESC Pompéia, 4 de outubro de 2013

(originalmente publicado no blog Glück Midia)

Direto ao ponto: nunca fui fã de Husker Dü pelo simples fato de achar os discos extremamente mal gravados, principalmente, a bateria. Isso soa ridículo vindo de um fã de Guided By Voices, mas, enfim, não conseguimos ser coerentes o tempo todo, não é mesmo? Mas, bem, somente um imbecil ignoraria a importância do Husker Dü para o rock alternativo (uma das primeiras bandas alternativas a assinar com uma gravadora grande, a Warner, em 1986) e para a sobrevida do punk como gênero popular e não como gueto – se um dia existiu Green Day, foi dessa fonte que Billie Joe Armstrong e seus amigos beberam. E só um surdo completo não conseguiria perceber que, por trás daquela produção equivocada, haviam canções memoráveis. “Could You Be The One” e “Don’t Want To Know If You Are Lonely”, para ficar nos dois maiores hits, pareciam querer se livrar das amarras do som ruim (POR QUE A BATERIA É UMA LATA? POR QUÊ? POR QUÊ?).

Lamentações à parte, com uma namorada fã do Copper Blue (1992), do Sugar, lá fomos nós para as duas noites de Bob Mould, o ex-vocalista do Husker Dü e do posterior Sugar, no aprazibilíssimo SESC Pompéia. Não que eu tenha reclamado, já que ela pagou o ingresso – R$ 6,00 por dia, com a carteirinha de comerciário. Quase um preço simbólico.

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Bob Mould vive de power trios. Atualmente, ele se cerca de metade do Superchunk, com Jon Wurster na bateria e Jason Narducy no baixo (substituto de Laura Ballance, que está com problemas de audição). A formação é a mesma que gravou Silver Age (2012), mais recente disco solo de Bob e, alvíssaras!, é uma paulada nos sentidos do início ao fim. Os shows no Brasil (dois em SP, um no RJ), no entanto, não seriam os primeiros de um ex-Husker Dü por aqui. Três semanas antes, Grant Hart, o baterista e arquirrival de Mould dentro do trio, veio a São Paulo para uma apresentação de graça, na Galeria Olido, bem no centro da capital. Mas o formato solo fez com que o show atingisse apenas os iniciados. Seria no show de Bob Mould, com uma banda completa, que fã de Husker Dü lavaria sua alma pra valer.

Aos 52 anos, Bob aparenta ter no mínimo 10 a menos, tanto na aparência quanto na postura de palco. Ele sobe agitado, ansioso, chega à sua posição, pluga a guitarra e toca cinco músicas emendadas, exatamente as cinco primeiras do pequeno clássico do Sugar, Copper Blue: “The Act We Act”, “A Good Idea”, “Changes”, “Helpless” e a preferida da patrôa, “Hoover Dam”. O som é alto e claro, rock and roll cristalino, sem firulas. Banda afiadíssima: Jon Wurster é aquela garantia de MARRETA e o Narducy palheta seu baixo sem deixar qualquer buraco. Não há nenhuma chance para a paumolescência, e a coisa só melhora quando Mould pára, apresenta rapidamente a banda a emenda mais uma sequência, agora do Silver Age: “Star Machine”, o hit “The Descent”, a bela “Round The City Square” e “Steam Of Hercules”.

O pé no freio vem com “Come Around” e “Your Favorite Thing”, voltando ao repertório do Sugar. Até então, o público admirava o show sem, digamos, externar muito sua empolgação. Para não dizer PARADOS mesmo. Isso se seguiu mesmo com a primeira música do Husker Dü do repertório, a balada “Hardly Getting Over It”. Se eu soubesse que essa era uma música do Husker Dü, eu teria ficado no meu lugar, na beira do palco, junto com a namorada. (Claro, amigo leitor, eu sei o nome das músicas porque li o setlist depois.) Mas achei que dava para ir ao banheiro e pegar mais um chopp antes da canção seguinte, posto que o povo não estava se movimentando muito e estava ligeiramente espaçado.

E foi quando eu coloquei a mão no copo de chopp que veio ela, “Could You Be The One?”. Incrível, em milésimos de segundo, o SESC Pompéia se transformou no Hangar 110 e fez muito tiozinho punk se meter dentro da roda de pogo como se fosse moleque. A coisa só piorou (melhorou?) com “I Apologize” (vi gente chorando com o punho em riste nessa), “Celebrated Summer” e “Chartered Trips”, mais três da velha banda de Mould. Gente voando, amigos se trombando e eu tentando passar sem derrubar minha cerveja (não sou do tipo que gosta de desperdiçar, se me entende). Para fechar a conta, uma da safra solo, “Keep Believing”, com Mould largando um delay repetindo os últimos acordes por mais de dois minutos, marcando o final do “show regular”.

O primeiro bis vem com a perfeita “If I Can’t Change Your Mind”, do Sugar, um tipo de canção de rock que não se faz mais hoje em dia (HOJE EM DIA SÓ TEM PORRA DE GUITARRINHA. JOVENS, PAREM COM A PORRA DA GUITARRINHA E APRENDAM COM ESSES TIOS A, PELAMORDEDEUS, TOCAREM ROCKANDROLL). Em seguida, mais Husker Dü, com “Something I Learned Today”. Um arregaço.

Fim do primeiro bis. Bob agradece. Alguns fazem sinal de REZA implorando por mais. E ele atende com “Flip Your Wig” e “Hate Paper Doll”. O público responde com o SUOR do pogo. Para o final, Bob guarda na manga “Makes No Sense At All”. Alguns não acreditam. O show termina e não existe um único ser vivo dentro do SESC Pompéia sem um sorriso no rosto. Até mesmo quem não era fã de Husker Dü – e que no sábado de manhã tratou de baixar a discografia inteira e rever todos os seus conceitos.

No, Bob, it’s me. I apologize.

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Sobre o Rockcity Jam e paixão pelos palcos

(originalmente publicado na coluna “Memória do Som” do blog do medalhista brasileiro do arremesso de peso e de disco, ambos na categoria master, Ronaldo Casarin).

Aquela tarde em Taubaté não seria a primeira vez que eu pisaria num palco na frente de desconhecidos para tocar uma música. Um festival na escola, na época do colégio em 2000, já tinha tirado minha virgindade musical – porém, somando a fase classificatória e a final propriamente dita, eu havia tocado três canções. Não fizemos um “show” de verdade, na acepção da palavra, mas apenas uma “apresentação”.

Show, show mesmo, seria o daquela tarde, mas não que fôssemos tocar muitas músicas a mais do que naquele final de semana escolar.

E não haveria um palco, também.

O Polidreams tinha apenas cinco músicas compostas naquele dia 14 de junho de 2003. Eu me lembro de estar muito gripado, e preocupadíssimo com os backing vocals que eu fazia nas duas últimas músicas. A gente tocava o que a nossa vocalista Carol Ribeiro chamava de TPM Core: minas gritando e tocando muito alto, com dois machos (Luis “Meteoro” Naressi e eu) fazendo o contraponto masculino. A formação da banda não era proposital, até onde me lembro, simplesmente aconteceu de ser assim. Acho.

Obviamente, os riffs pesados e os vocais gritados nos carregaram ao encontro do temido rótulo muito em voga após a virada do milênio: o EMOCORE. Mas, de coração, se não fôssemos tão jovens e verdes para a música como éramos então, ficaria bem claro que o Polidreams era uma banda muito à frente do que se fazia sob essa bandeira “emo” na época. Digo isso tranquilamente porque eu não escrevia as músicas, muito menos ditava os rumos da banda. Disso cuidavam Carol e Lívia “Sweet” Camargo – esta, dona de quase todas as melodias que tocávamos e uma compositora que eu lamento muito não ter conseguido se firmar consistentemente com uma banda para mostrar do que é capaz.

Para mostrar que não éramos apenas uma bandinha “emo” que só conhecia outras bandinhas “emo” (acontecia muito do pessoal não ter referência alguma de rock fora o punk da época), eu chutei o balde e fui pro show com uma camiseta do JETHRO TULL. Eu nem ouvia muito Jethro Tull. O único disco que tenho deles é o Aqualung e era a capa deste álbum que estava no meu peito. Era a minha armadura pessoal contra os olhares de análise e consentimento da cena punk/hardcore que estaria atenta à banda debutante do dia.

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O Rockcity Jam aconteceria na tal Chácara do Fabinho, um local que o pessoal costumava alugar pra churrascos e confraternizações. Não me lembro de outros shows lá, mas posso estar errado. Também não me lembro de quem organizou a contenda. Muito menos me recordo de quem a Carol emprestou o baixo para que eu tocasse – pois é, eu tocava contrabaixo elétrico no Polidreams e, eventualmente, trocava de lugar com a nossa baterista Tiana Darwich (por onde anda?).

Como eu disse antes, eu estava gripado e preocupado, então precisava me animar. Por algum motivo, coloquei no meu videocassete o tape do Iron Maiden no Rock In Rio 3 enquanto almoçava. “The Evil That Men Do” rolando e eu tentando pegar cacoetes que inspirassem força e confiança. Domínio de palco. Mas não haveria um palco.

Seríamos a primeira banda do dia e o lance rolou no chão de ardósia mesmo, sem praticáveis, sem luzes coloridas, sem glamour nenhum de Rock In Rio. Não tinha muita gente, considerando o número absoluto, mas havia amigos em quantidade suficiente para me deixar bastante nervoso.

Afinei o baixo emprestado e fui para a bateria, que era o meu lugar na primeira música – “Meet Your Song”, instrumental. Outro ponto de preocupação: apesar de eu me prestar a tocar bateria, a velocidade daquela música me impedia bater o bumbo duas vezes com o pé, coordenadamente, no tempo entre duas batidas na caixa. Tinha medo que a plateia me achasse ridículo por não conseguir fazê-lo. Por isso, eu inventei na hora de tocar a música MUITO mais rápido, ao melhor estilo Loco Live dos Ramones, com um bumbo só e foda-se. Meteoro começou o riff da música, a Carol disse alguma coisa por cima e, DÁ-LHE REIO!, acelerei tudo, acabei com a banda. Ficou uma merda sem tamanho, obviamente. Ao final da canção, fui para o baixo emprestado e me senti mais calmo… NOT. Ainda havia quatro canções para atravessar.

Seguiram-se os PETARDOS “Can’t Stay”, “Tear For Anna”, “Postcards From Hell” e “Take It Away” (não, esses títulos não nos ajudavam em nada a afastar o rótulo “emo”, que grudou feito PICHE no Polidreams). Meu primeiro show de verdade, com uma banda de verdade, não durou mais do que 20 minutos, mas pareceu ter mais de uma hora, para mim. Apesar de me lembrar dos elogios (os falsos), do nervosismo, do cansaço e da rouquidão, a memória já apagou os detalhes menos importantes entre aquelas canções. Mas do que houve mais importante – coisas que não se vê nem se percebe na hora – ficou tudo comigo. Nunca mais larguei o “palco” (mesmo não havendo nenhum, ali, mas vocês entenderam a metáfora, certo?). Com outra banda, o Seamus, fiz mais de 100 shows pelos 9 anos seguintes. E tudo começou gritando no microfone, vestindo uma camiseta do Jethro Tull e tocando contrabaixo elétrico na frente do pessoal da cena punk/hardcore taubateana.

E depois da egotrip que virou esse relato (desculpem), acabo de recordar que naquela tarde tocou outra banda que não está no flyer: o Tróia Contra Ataca, que veio da banda Gas Pipe e acabou dando origem ao Copacabana Café (que depois mudaria para Cabana Café). Deve ter sido a estreia do Tróia. Naquele dia também teve o último show (se não me engano) do Red Season. O Samurai tocou com uma Gibson Les Paul que até hoje é a guitarra mais pesada (em quilos, mesmo) que eu já senti. Era de chumbo, aquela porra.

Ali também conhecemos o Bem-Vindo José Antônio, banda pesadíssima (esta, em som) de Jacareí que, acho, ainda está na ativa. O Need Off era figurinha carimbada – devo ter visto vários shows na época. Teve uma noite em Caraguatatuba que rendeu cenas hilárias. Foi dessa banda que saiu o Fábio “Véio”, que depois tocou teclado no The Vain. E o No Cow fechou a tarde (que já era noite) justificando o respeito que todo mundo nutria por eles. Todos os caras da banda tocavam muito. Eles iam para uma linha mais new metal, mas nada de limpi bisquit, por favor. O negócio era sério, ali.

Era uma época legal. Aquela coisa: a gente sempre pensa mais tarde que gostaria de ter tido a consciência para ter vivido o momento sabendo da importância que aquilo teria dali em diante. Mas a inocência se mostrou necessária para forjar nossas paixões e nossas histórias.

São Paulo/SP, 5 de junho de 2013.